É homem novo

Tenho mais de umha vez tentado partilhar a importância das estruturas populares e tradicionais do uso e propriedade da terra, frente aos modelos “modernos”, baseados primeiro na concentraçom de parcelas, logo na concentraçom da propriedade e, agora e mais recentemente, na apariçom de empresas e capitais alheios à nossa sociedade entrando com voracidade desmedida na merca especulativa do nosso território, e estou sempre a falar de terras agrárias e florestais, e usos agrários e florestais, sem entrar em outras condicionantes e ussos como os energético e mineiros, que daria para outro.
O homem e a mulher novos viram pelas corredoiras
Estas linhas som a segunda parte de um outro artigo, de título “De latifúndios e minifúndios” no que tentei -nom sei se com pouca ou moita fortuna- defender o modelo tradicional, minifundista, de uso e propriedade da terra na Galiza: popular, colaborativo e solidário, ecologicamente sustentável fronte ao modelo latifundiário, explorador, capitalista, predador do território. Esse modelo que representava umha burguesia agrária na Galiza apenas anedótica, mas que foi o modelo natural na maior parte da Europa ocidental, e que daria seculos atrás pé à apariçom da revoluçom industrial, à proletarizaçom das massas camponesas e a toda umha série de situaçons das que galegas e galegos fomos alheios ou chegamos um par de séculos tarde.
A dia de hoje, para a nossa desgraça e aguardando a necessária e pertinente autocrítica do agrarismo galego nas suas diferentes famílias (das forças agrárias subsidiárias do sindicalismo operário espanhol, ou das fórmulas abertamente liberais, nom cabe aguardar nada), essa burguesia agrária (pequena burguesia) ou germolo da mesma, ou aspirantes a sê-la, já está no nosso rural: esse novo ou nova pequena burguesa agrária é umha ganadeira ou umha viticultora. Provavelmente seus pais tinham quinze ou vinte vacas numha corte, ou dez ou quinze ferrados de vinha. Permitide, por um maior conhecimento do setor, que empregue ás primeiras como exemplo do processo, sendo -com as singularidades evidentes- extensível às segundas, na elaboraçom do relato.
Aqueles finais dos oitenta e primeiros noventa viram marcados no rural, como em outros setores sociais e económicos na Galiza, pola entrada do Estado Espanhol no MCE, logo CEE, agora UE. E no rural deu-se umha situaçom pouco menos que esquizofrénica: por umha banda, apostava-se pola produçom ganadeira, especialmente a láctea, como eixo vertebrador da atividade económica e produtiva de grande parte do território galego com umhas 100.000 exploraçons de partida a aquela altura e, pola outra, estabeleciam-se quotas de produçom de leite muito por baixo da capacidade produtiva existente naqueles tempos. Por umha banda, promoviam-se atuaçons públicas em forma de concentraçons parcelares, habilitavam-se subsídios para a melhora genética da cabana ganadeira, facilitavam-se planos de melhora para aumentar a eficiência e tecnificaçom das granjas, promovia-se a compra de nova e custosa maquinaria…. e ao mesmo tempo começaram as mobilizaçons agrárias reclamando mais quota de leite para a Galiza, com o agrarismo nacionalista à cabeça, e nom podia ser de outra maneira.
Durante por volta de vinte anos, a história foi mais ou menos a mesma: os e as gandeiras de vacum de aptitude leiteiras como coletivo de força e pedra angular da economia agrária galega, pequenos aumentos nas quotas já for por repartos gratuitos (os menos) como por compra dos fundos europeios ou compra entre particulares promovida (também via subsídio polas administraçons), mais mobilizaçons (porque a produçom nom parava de medrar, paralelamente ao aumentos dos investimentos nas granjas), exploraçons que desapareciam, concentraçom das terras e das produçons em cada vez menos mãos… e o filhos ou filhas de aquela mulher e de outras que partiam das 15 ou vinte vacas no cortelho, quando nom já as netas a esta altura, colhendo o relevo das apenas 7000 granjas (lembremos que partíamos de mais de 100000).
Mas algo foi mudando nestes anos. Porque finalmente desapareceram as quotas, e a produçom já é “livre”, a agora vemos que serviram para deixar no caminho a aquelas que ou bem nom poderem ou bem nom quiseram endividar-se na compra de direitos de produçom. E a filha ou a neta de aquela mulher das quinze ou vinte vacas já nom é umha labrega, já há tempo que decidiu que era umha empresária. E as organizaçons agrárias que no seu dia a defenderam já nom som de utilidade mais que como gestorias baratas, ou como alguém a quem pressionar desde o seu lobby de empresarias ganadeiras, porque na realidade já se foram organizando em outro tipo de estruturas de corte “empresarial”. Ademais, leva anos repetindo que os “sindicatos” nom servem para nada, ainda que sega a pagar quotas de filiaçom de um, ou mesmo dous. Porque quando lhe baixam um cêntimo o litro de leite, tem que chamar seriamente anojada, as mais das vezes com mãos modos, para pressionar com a imediata saída nos meios de comunicaçom, com a ameaça de mobilizaçons, tratoradas, feches e o que faça falta, E a organizaçom agrária em questom (qualquer delas), sistematicamente desprezada por essa filiaçom, mas que logo deste processo, é o grosso do seu corpo social, apresta-se a defender com unhas e dentes a quem, na prática é -se nom causante- umha das cúmplices da destroço do rural galego. Já sei que sona forte. Explicar-me-ei.
O manejo da terra (ou que manda fazer, porque agora já tem empregados e empregadas em moitos casos, ou empresas contratadas para fazer umhas ou outras lavouras) já nada tem a ver com a da sua predecessora. Agora “gestiona” as suas leiras mais as de oito ou dez vizinhas que também tinham quinze ou vinte vacas mas ficaram no caminho (nom se souberam modernizar). Tirou os valos e sebes que ainda quedavam desde a última concentraçom parcelar, porque ainda que no plano do cadastro apareçam distintas parcelas, já som (ou trabalha) todas ela, e é mais eficiente, diz, (e se som tampouco lhe entra o trator de 200cv) fazer de todas umha leira. Já só sementa milho metade do ano, e erva para ensilar a outra metade. A “atrasada” da sua avoa punha horta, e patacas, e trigo,…. um atraso, umha cheia de trabalho que se soluciona fazendo umha compra semanal no super da vila
E assim imos somando perda de biodiversidade no natural, nos cultivos, perda de capacidade de autoconsumo, trouxo pragas e enfermidades…. dinamitou todo aquelo que caracterizou ao rural galego ao longo da sua história. Mas podemos ser práticos e dizer aquelo (que tanto repetiram desde as administraçons e os e as encantadoras de serpes das empresas de maquinaria, insumos e instalaçons), “ os e as que fiquem, vam ficar moito melhor”…. mas a realidade tampouco é essa: endividamento, dependência dos insumos alheios à exploraçom, avelhentamento, perda de serviços públicos, despovoamento,…
Nessa nova mentalidade burguesa, os e as que vivemos ou pretendemos viver de umha outra maneira no e do rural, somos absolutamente desprezáveis. Lembramos-lhe à sua avoa. Ao pior da sua avoa. Somos o freio à sua expanssom, um recordo ruim do seu passado.
Quando digo que da mão dessa ganadaria forjada no subsídio e no medre descontrolado está em boa parte e medida a chave para entender a destruiçom do rural que por centos de geraçons alimentou este povo, tenho também a certeza que no meio dessas pessoas há quem ainda pensa que umha volta à terra, à tradiçom, ao galego, é possível, mas também som tanto ou mais desprezadas que os e as que pensamos num rural multifuncional, solidário, popular, (e nom digo já vegano).
Mas o mundo está a mudar, o sistema, a velha e rançosa Europa, o jardim borrreliano, está nas últimas, som os estertores do monstro.
E o homem e a mulher novos, o futuro deste rural, o futuro da Galiza, virám andando, tranquilos e com passo firme polas corredoiras
Por onde os tratores de dous centos cavalos nom passam, porque petam nas chantas
Por onde os Mercedes e Audis nom passam, porque ficam atorados na lama
Umha fouce na mão, umha vara de aveleira na outra
Um sorriso enorme no coraçom.
Gabriel Lopes. Camponês/Dr. Executivo de O Campesinhado