De minifúndios e latifúndios

Lembro quando na escola nos explicaram o aquele dos minifúndios e os latifúndios. O minifúndio, a agricultura da miséria, pobreza, de leiras que por pequenas nom eram mais que um atranco, um sinónimo de escassez e sobre tudo o sinónimo do atraso e da ineficiência:

“Exemplo de minifundismo: Galiza” – sentenciava o mestre.

O latifúndio, o exemplo de riqueza, prosperidade, grandes leiras aptas para a mecanizaçom que a agricultura moderna e eficiente precisa.

“Exemplos de latifundismo: Castela e Andaluzia”.

Assim os agricultores e agricultoras do latifúndio eram gentes ricas, pudentes, respeitáveis, modernas… nada a ver com as nossas labregas e labregos, pobres eles e elas, da bata cruzada, boina em mão e bosta nos sapatos.

Pergunta de exame: que é o minifúndio? E o latifúndio? Qual dos dous sistemas é melhor? Explica a tua resposta. Hoje teria suspendido o exame. Eu som de minifúndio: explico o minha resposta.

Nom sendo eu alguém estudoso de questons de economia agrária, suponho que a golpe de observaçom (e um algo de atrevimento) case trinta e moitos anos depois vou contestar outra vez a pergunta que Dom Luis, mestre chegado de Cuenca a Foz lá polos oitenta, nos fizera nas aulas.

O grosso do camponesado galego é dono da súa terra, e o nosso sistema de tenza da mesma, se observamos, tem certas características que o fam extraordinariamente eficiente. Vemos que cada casa (tomando esta como unidade produtiva), tinha acesso a diversas leiras (hortas, lameiros, cortinhas, lavradios,…) que à sua vez se caracterizavam por ter distintas aptitudes produtivas, que à sua vez asseguravam a multifuncionalidade das produçons, moitas vezes simplesmente para garantir quando menos o autoconsumo da casa e aqueles mínimos excedentes que alimentavam o mercado local e a obtençom de aqueles bens que nom se davam produzido na casa. Socialmente, ainda que existam diferéncias e nom todas as casas obtenham as mesmas rendas (sempre haverá casas mais grandes e mais “ricas” que outras), as diferéncias sociais nom tenhem nada a ver com as criadas nos sistemas latifundiários, onde uns poucos som donos do terreno, e uns moitos vendem ou entregam quase grátis a força do seu trabalho para viver.

Desde o ponto de vista da ecologia, sebes, balados, regos…. garantem nom só a existência de plantas e animais que de outra maneira desapareceriam da nossa terra. Som também barreiras e “ferramentas” naturais fronte a lumes, pragas, ou enfermidades de animais e plantas. A destruçom de hábitats, da fauna e microfauna nessas zonas de cultivo até onde nom alcança a vista leva nom só a perdas nas colheitas mas também ao uso e abuso de todo tipo de fitosanitários que nom fam mais que redundar no problema ou mesmo criar mais.

Mas é evidente que a estrutura agrária do nosso rural foi mudando. O nosso sistema nom é compatível com o capitalismo moderno. Ao mesmo tempo que avançavam as concentraçons parcelares, a Política Agrária Comum e ENCE decidiram transformar a nossa paisagem agrária. Da multifuncionalidade passou-se à “especializacom” produtiva. As paleadoras arrasaram com balados, sebes, chantas…. o milho forrageiro deixa passo ao rai-gras em outono, e outra vez milho em primavera, rodeado de eucaliptos; essa é a nova paisagem de demasiados lugares da Galiza.

E o câmbio na estrutura territorial leva parelho o câmbio na “estrutura neuronal” dos filhos e filhas, mesmo netas de aqueles labregos e labregas, da bata cruzada e a boina entre as mãos. Agora já nom som mais labregas; som moças e moços “empreendedores”, empresários. Lim há uns dias umha entrevista a umha destas moças, apenas vinte anos e supostamente recém incorporada à atividade agrária, explicando cheia de raçom tras do escritório que o futuro do rural galego eram as granjas lácteas “XL” (dizia ela) de mais de 500 vacas, e com empregados para todo, para ela poder ir com as suas amigas as fins de semanas a praticar a hípica. Eis o forçado nascimento de umha sorte de burguesia agrária galega, até agora inexistente, Um modelo só rendível a conta dos subsídios da PAC e a exploraçom laboral desses empregados e empregadas que trabalharám para ela. Quase ao mesmo tempo, e a escassos quilómetros, outra moça denúncia a exploraçom laboral e a precariedade que se vive na empresa andaluza Surexport, ponta de lança do modelo “El Ejido” na Galiza; só uns dias depois morre um rapaz migrante logo de sucessivas jornadas laborais esgotadoras e mal pagadas. Ao mesmo tempo a Xunta anuncia umha nova lei de mobilidade de terras agrárias que aspira a criar grandes polígonos agro-florestais para a sua adjudicaçom e posta em produçom “eficiente”.

Lembro há bem anos ao Milucho argumentar que eficientes eram aquelas aquelas casas que, com quatro vacas, eram quem de sustentar à família mais mandar estudar umha filha fora para dar-lhe umha carreira.

O latifundismo já está cá. Chega o ponto em que nom tudo val no nosso rural. Mas nom toca rendir-se. Seguiremos…

Gabriel Lopes. Camponês/Dr. Executivo de O Campesinhado

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